Por anos, ecoa em nossos corações um clamor, uma sede profunda por um "avivamento". Oramos, jejuamos, cantamos e sonhamos com uma ...
Por anos, ecoa em nossos corações um clamor, uma sede profunda por um "avivamento". Oramos, jejuamos, cantamos e sonhamos com uma visitação divina que cure nossa terra, restaure nossos valores e transforme a alma da nossa nação. Ansiamos pela chuva de Deus sobre a terra seca do Brasil.
Contudo, em nossa busca sincera, talvez tenhamos focado na promessa, sem ponderar a condição. Olhamos para o céu esperando um avivamento, enquanto Deus olha para a terra esperando um movimento. O profeta Oséias nos entrega hoje não apenas um verso poético, mas um diagnóstico divino e uma rota inegociável. A promessa é certa, mas o caminho para ela tem um preço.
O Sentimento de Culpa pelos nossos Pecados.
"Irei e voltarei para o meu lugar, até que se reconheçam culpados e busquem a minha face; na sua angústia, me buscarão." (Oséias 5:15)
A divisão contemporânea de capítulos e versículos na Bíblia oculta a conexão entre o último versículo do capítulo 5 e os três primeiros do capítulo 6 do livro de Oséias. Erroneamente, alguns interpretam as divisões modernas como fragmentações textuais, quando, na verdade, servem apenas para localização, não representando necessariamente a estrutura original dos parágrafos. Consciente disso, o último versículo do capítulo 5 e os três primeiros do capítulo 6 de Oséias pertencem ao mesmo parágrafo no texto original, justificando o uso do último versículo nesta mensagem.
Ouçam com atenção. A ausência de Deus não é um abandono, é uma retirada estratégica. Ele não nos deixou; Ele aguarda. Ele se recolheu ao Seu lugar e estabeleceu uma condição inegociável para o Seu retorno: que reconheçamos nossa culpa e que, movidos pela nossa própria aflição, O busquemos.
A crise social, a corrupção generalizada, a violência que nos assola, a confusão moral... tudo isso é a "angústia" que deveria nos levar a buscar a Sua face. O silêncio de Deus não é o fim da história e nem um suposto abandono, mas é o convite mais sério que Ele poderia nos fazer.
Reconhecer a nossa culpa é o primeiro passo e não há outro para irmos até Deus. Nenhum homem, nenhuma oração, nenhum avivamento começou de outra forma.
Qual seria a razão principal do nosso fracasso? Por que a igreja de Deus negligencia a oração? Por que os sermões não tocam os corações? Por que as pessoas retomam seus hábitos e vícios logo após os cultos? A resposta é simples: falta o senso de culpa! Nossos pregadores carecem da autoridade divina e, por isso, não conseguem, ou não querem, ou não se atrevem, ou por qualquer outro motivo, não levam as pessoas a clamarem como em Atos 2:37: "Que faremos, irmãos?"
Nossa carne, amaldiçoada como é, não ascenderá a Deus se permanecer inerte, serena e complacente! A nação não retornará ao Senhor enquanto o fardo da culpa, imposto pela palavra da verdade divina, não a oprimir! Nosso coração é por demais endurecido e nossa natureza, demasiadamente frágil para buscar a Deus na suposta segurança, e não, não estamos seguros.
Qualquer pregador que se atreva a se apresentar como um mensageiro divino para o povo, proclamando os horrores que aguardam os perdidos e os negligentes, receberá o auxílio do Espírito de Deus para convencer o mundo acerca do pecado, da justiça e do juízo (João 16:8).
Reconhecer a nossa culpa e buscar ao Senhor é o primeiro passo. Caso contrário, o segundo passo inevitavelmente virá: "na sua angústia, me buscarão." A ausência do reconhecimento da miséria e da culpa leva à angústia. Essa dor profunda não pode ser escondida, manifestando-se como humilhação, vergonha e desprezo para a igreja no mundo. Uma perseguição severa, até mesmo sangrenta, contra a noiva de Cristo. "Ah, então sim, me buscarão", diz o Senhor. Embora tema por isso, jamais pediria a Deus que não afligisse Seu povo. Pelo contrário, oro para que, se essa aflição vier, eu seja o primeiro a recebê-la, e que seja para a cura de nossas almas, não para a nossa perdição.
É urgente que transformemos nossa pregação! O povo de Deus anseia pela genuína palavra divina, pela mensagem fresca, séria e libertadora. É urgente reconhecermos nossas falhas hoje, sem adiamentos. Não podemos tolerar o pecado como estilo de vida em nosso meio, nem justificar nossa conduta com a desculpa de uma natureza pecaminosa para viver aquém da santidade que Cristo exige de sua igreja.
É neste ponto de tensão, neste silêncio ensurdecedor de um Deus que se retira e aguarda, que o capítulo 6 irrompe. Ele não é um novo pensamento; é a única resposta possível ao ultimato divino. É o povo, finalmente, dizendo: "Entendemos. Vamos responder."
A Decisão Coletiva de Conhecer
A resposta começa com um chamado no plural: "Vinde, e tornemos ao SENHOR..." e logo em seguida, "Conheçamos!". Este é o som de um povo que se desperta. É um chamado para a Igreja, para a nação. É um brado coletivo.
Contudo, aqui reside nossa primeira falha. Esperamos que a "Igreja" como entidade abstrata decida, que o "Brasil" como um conceito mude. Mas a verdade bíblica é que toda grande decisão coletiva é a soma de milhões de decisões singulares corajosas. A corrente da nação só se tornará forte se cada elo, cada vida, cada família, decidir por si. O chamado é no plural, mas a obediência é no singular. Não adianta gritar "Vem, avivamento!" em um estádio, se no altar secreto do nosso coração não houver a decisão pessoal: "Eu decido, hoje, conhecer o meu Deus".
O profeta apresenta com um chamado plural e decisivo: "Conheçamos!". Esta não é uma sugestão, é uma convocação. Deus, através de Oséias, não nos chama a construir mais templos, a organizar mais eventos ou a atender a nossa vaidade religiosa. Ele nos chama, como um só corpo, a tomar uma decisão fundamental: a de realmente conhecê-Lo.
Nós, a Igreja, nos tornamos peritos em falar sobre Deus. Dominamos a doutrina, a teologia e a liturgia. Mas será que O conhecemos? O conhecimento que Oséias propõe – yadá – é o conhecimento da intimidade, da experiência, da relação que transforma. É sair de uma fé herdada, cultural ou superficial, para uma fé decidida.
Esta é a primeira condição para o Brasil: que a Igreja, a consciência espiritual da nação, pare de se contentar com um Deus de ouvir falar. Que nós, juntos, como um só povo, declaremos: "Basta de uma fé anêmica! Nós decidimos, hoje, conhecer o nosso Deus!". Este é o ponto de partida. Sem essa decisão coletiva, todo clamor por avivamento é apenas um som vazio.
É o reconhecimento inicial da necessidade de conhecer a Deus. O profeta está falando a um povo que havia se esquecido de Deus ou mantinha uma relação apenas formal e ritualística com Ele. Portanto, este primeiro chamado é para despertar, para sair da ignorância ou da apatia. É o início de uma jornada.
A Perseguição Incansável pelo Conhecimento.
Se a decisão é a porta, a perseguição é o caminho. O profeta eleva o desafio: "Prossigamos em conhecer". A palavra hebraica para "prosseguir" é "radaf", que significa caçar, perseguir, correr atrás com toda a força.
Esta perseguição exige esforço, disciplina e sacrifício. Significa desligar o ruído do mundo para ouvir Sua voz. Significa abrir as Escrituras não para obter argumentos, mas para sermos transformados. Significa uma obediência que custa, uma santidade que se isola do padrão do mundo e uma busca por justiça que confronta as estruturas de nossa nação.
É mais profundo? Sim. A imagem de "perseguir para conhecer" sugere um esforço contínuo, uma busca que vai além da decisão inicial. Não basta dizer "vamos conhecer"; é preciso empenhar-se ativamente nessa busca. Este é o caminho para um conhecimento que não é estático, mas dinâmico e crescente. É o conhecimento íntimo e relacional (yadá), que se aprofunda com o tempo e a experiência.
É singular? Aqui está a parte mais importante. A ação de "prosseguir" também está no plural ("nós prossigamos"). Portanto, a busca pela profundidade também é um convite coletivo. O profeta está chamando a comunidade inteira para, juntos, aprofundarem seu conhecimento de Deus.
No entanto, uma busca coletiva por profundidade implica um compromisso singular e pessoal. A igreja só se aprofunda se os indivíduos que a compõem estiverem pessoalmente engajados nessa "perseguição".
A resposta ao silêncio de Deus não para na decisão; ela avança para a ação. "Prossigamos em conhecer". Como vimos, isso significa uma perseguição, uma caçada santa.
Novamente, o chamado é coletivo: "Prossigamos nós". Deve ser um movimento que varre a nação, uma busca por Deus que se torna a nossa cultura. Mas como isso acontece? Acontece quando a busca por Deus deixa de ser um item na nossa agenda de domingo e se torna a obsessão singular do nosso “hoje”. Acontece quando a nossa oração pessoal se aprofunda, quando o nosso estudo da Palavra se torna inegociável, quando a nossa integridade no trabalho se torna um ato de adoração.
O sentido original do texto de perseguição coletiva que Oséias conclama é um incêndio formado por milhões de tochas individuais. Se a sua tocha estiver apagada, você está enfraquecendo o movimento. O avivamento coletivo depende da sua busca singular e apaixonada.
Uma nação não muda porque a Igreja ora por mudança. Uma nação muda quando a Igreja se torna a mudança que persegue. Quando a Igreja no Brasil decidir perseguir o conhecimento de Deus com mais afinco do que persegue o sucesso, a prosperidade ou a relevância cultural, a terra começará a sentir os tremores de um céu que se move.
A Promessa Inabalável: A Alva e a Chuva
É somente após apresentar esta condição dupla que Oséias descreve a promessa. E que promessa!
"...como a alva, a sua vinda é certa..." A vinda de Deus não é uma talvez. É uma certeza, tão garantida quanto o nascer do sol. Mas a alva só rompe depois que a noite é vencida. A vinda de Deus se torna certa para nós quando decidimos e perseguimos o conhecimento d'Ele. A variável não está em Deus, está em nós.
"...e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra." Esta é a imagem do avivamento que tanto almejamos. A chuva que vivifica a terra seca e estéril. A chuva que prepara a colheita final. Deus está nos dizendo que o avivamento não é um evento aleatório, mas uma consequência agronômica e espiritual. Ele virá regar a terra que foi arada pela decisão e cultivada pela perseguição.
A vinda de Deus, que se retirou em 5:15, agora "...é certa como a alva". O Seu retorno é garantido! O silêncio se quebra. A ausência termina. E Ele "...descerá sobre nós como a chuva". A angústia que nos levou a buscá-Lo é substituída pela chuva da Sua presença que nos cura. O avivamento não é mais uma esperança distante; é a resposta pactual de um Deus que foi buscado nos Seus termos.
Chamado Final
Igreja no Brasil. Nação brasileira. O clamor por avivamento é legítimo, mas nossa resposta tem sido insuficiente. Queremos a coroa do avivamento sem carregar a cruz da busca. Queremos a chuva de Deus sem o trabalho de arar a terra do nosso próprio coração.
A condição é clara e inegociável. Que este seja o nosso brado, o nosso hino, a nossa obsessão: Conheçamos! Vamos tomar a decisão coletiva de colocar Deus no centro de tudo. E, uma vez decidido, prossigamos! Vamos perseguir Seu conhecimento em nossas vidas privadas, em nossas famílias, em nossas igrejas e em nossa postura pública como cidadãos.
Quando a busca por Deus se tornar a grande paixão nacional, liderada por uma Igreja desperta, então e somente então, veremos os céus se abrirem. A vinda d'Ele se tornará certa como a alva, e o avivamento descerá não mais como um sonho distante, mas como a chuva serôdia, fiel e abundante, que rega e transforma tudo.
A pergunta não é se Deus quer avivar o Brasil. A pergunta é se estamos dispostos a pagar o preço de conhecê-Lo.
Brasil, o diagnóstico foi dado. A ausência de Deus em tantas esferas da nossa sociedade não é o nosso destino; é a nossa condição atual, permitida por Ele até que respondamos ao Seu chamado.
A resposta não virá de Brasília. Virá da Igreja. Uma Igreja que para de terceirizar a responsabilidade e entende o poder do plural que é construído no singular.
Portanto, eu os convoco. Primeiramente, à decisão singular: no seu quarto, em seu coração, decida hoje conhecer e retornar a Deus. Em segundo lugar, ao compromisso coletivo: leve essa decisão para sua família, sua célula, sua igreja. Que o chamado "Conheçamos e prossigamos em conhecer" se torne o hino da nossa geração.
Pois Deus não está se escondendo de nós. Ele está nos esperando. Que o Brasil não seja mais conhecido pela sua angústia, mas como a nação que, em sua aflição, buscou a face de Deus e O encontrou na certeza da alva e na abundância da chuva.
